Che

A HISTÓRIA DE CHE FOI CRUCIAL PARA A VITÓRIA

Che Guevara foi, indiscutivelmente, o homem que melindrou o plano executado pelos Estados Unidos para a tomada de Cuba no episódio da Invasão da Baía dos Porcos. Sua experiência o fez um ator condicionante para a vitória do lado cubano nesse impasse.

por Rafael Silva
acadêmico em Relações Internacionais UNIBH
 
A participação de Guevara nesse evento começa, na verdade, em 1953, quando inicia pela segunda uma viagem pela América Latina, marcada por sua visão em prol da mudança administrativa mundial a fim de combater as desigualdades sociais e a miséria que o acompanhavam em sua trajetória. O Che descobriria um continente ainda desconhecido para ele, o exotismo para o qual ansiava e uma certa maturidade, tudo em um só golpe. Essa viagem representaria para Guevara algo mais que rito de iniciação e algo menos que uma ruptura com seu país, sua família e sua profissão1. Nesse percurso Che Guevara passou por México onde trabalhou como fotógrafo e repórter para uma agência de notícias da Argentina, fazendo a cobertura dos Jogos Pan-Americanos de 1953, e depois partiu para Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, El Salvador, Costa Rica e Guatemala.
Mas, foram os oito meses passados na Guatemala que mudaram completamente a vida desse, hoje, considerado ícone da liberdade e da revolução social. Na Guatemala ele definirá a sua consciência política e passará a posicionar-se contra a o imperialismo americano, o que lhe permitiu ser peça-chave no incidente em 1961 na Baía dos Porcos. Che chegou à Guatemala no fim de 1953, seis meses antes de uma tentativa de golpe de Estado apoiada pelos Estados Unidos. Nessa época, o país estava vivenciando uma situação política crítica, pois havia passado por um processo de democratização recente, resultado da chamada “Reforma Universitária” e, por isso, conhecia o seu segundo presidente, o coronel Jacobo Arbenz. Arbenz era esquerdista moderado e ao se eleger iniciou um ousado processo de reforma agrária na tentativa de eliminar a existência do latifúndio, o que contrariou fortemente as empresas norte-americanas que temiam ver terras, consideradas improdutivas, serem doadas a camponeses pobres e famintos. Em especial, as medidas do governo de Arbenz – como a implantação do salário mínimo, do direito à greve e do acordo coletivo – contrariaram a empresa multinacional United Fruit que se destacava durante o século XX como produtora de frutas tropicais em plantações no terceiro mundo. A United Fruit tinha um bom relacionamento com a administração do presidente dos Estados Unidos Eisenhower, o que alimenta as insinuações de que foi grande a sua contribuição para o golpe sofrido pelo presidente Arbenz em 1954. Os Estados Unidos começaram uma política de hostilidade por razões econômicas – os interesses da United Fruit – passando a tratar o governo de Arbenz como um governo comunista e, para isso, empenhou-se em uma campanha para desestabilizá-lo e derrubá-lo o que foi alcançado em junho de 1954 com o bombardeio da capital após uma invasão iniciada em Honduras por um exército comandado pelo militar e político guatemalteco, Carlos Castillo Armas, e apoiada claramente pela CIA, a agência de inteligência norte-americana. O confronto durou até o início de julho quando Armas tomou o poder, abrindo assim, um extenso período de ditaduras no país.
Durante o período em que esteve na Guatemala, Che Guevara passou por problemas econômicos sérios e não conseguiu se manter como médico do Estado por muito tempo. Ele que propunha-se ganhar a vida exercendo sua profissão, rapidamente se deparou com uma contradição comum na maior parte da América Latina: por um lado, escasseavam os médicos e abundavam as doenças, por outro, barreiras insuperáveis impediam um médico estrangeiro de exercer sua profissão2. No entanto, essa viagem o possibilitou conhecer pessoas fundamentais para a sua trajetória posterior. Foi nessa época que conheceu a peruana Hilda Gadea, que viria a se tornar sua primeira esposa. Hilda era uma estudante de economia exilada, colaboradora do governo do presidente Arbenz e dirigente da Aliança Popular Republicana (APRA), um movimento de centro-esquerda com origem no Peru e que se expandiu para a região conhecida como Indoamérica com propósitos de liberdade e justiça social, típicos de uma corrente socialista democrática. Hilda foi quem introduziu Che Guevara aos círculos políticos progressistas e esquerdistas onde se reuniam ativistas políticos, muitos deles exilados, como o cubano Antonio Ñico López, um seguidor de Fidel Castro. López e Guevara tornaram-se grandes amigos, o que se comprova pelo fato de ter sido Ñico quem criou o apelido ‘Che’ em virtude do uso constante que Guevara fazia desse vocábulo peculiar dos habitantes da região rio-platense para se referirem a outrem.
Entretanto, não termina por aqui a participação de Ñico na vida de Guevara, foi ele quem futuramente apresentou Che a Raúl Castro e este posteriormente o apresentou a seu irmão mais velho, Fidel Castro, que, por sua vez, já tinha liderado o Movimento Guerrilheiro 26 de Julho em Santiago para resgatar presos políticos em 1953. Che Guevara se uniria a Fidel em 1956 juntamente com outros 81 homens para promover a Revolução Cubana.
Voltando para a experiência de Che na Guatemala, é possível inferir que esta, sem dúvida, foi decisiva na definição de seus ideais políticos, pois é neste momento que ele pôde construir vários pensamentos que o acompanhariam em sua atuação na Revolução Cubana. Foi clara sua indignação perante a facilidade que os Estados Unidos tomaram o poder nesse país e isso se verifica na sua decisão em participar de brigadas comunistas.

“En el paso tuve la oportunidad de pasar por los dominios de la United Fruit, convenciéndome una vez más de lo terrible que son estos pulpos. He jurado ante una estampa del viejo y llorado camarada Stalin no descansar hasta ver aniquilados estos pulpos capitalistas. En Guatemala me perfeccionaré y lograré lo que me falta para ser un revolucionario auténtico...3

Che Guevara em uma carta à sua mãe se demonstra extremamente contrário ao exército guatemalteco que, segundo ele, em momentos decisivos desconhecem o patriotismo e se volta contra o povo:

“La traición sigue siendo patriotismo del ejército, y uma vez más se prueba el aforismo que indica la liquidación del ejército como el verdadero principio de la democracia”4

E em outro fragmento ainda salienta que “o perigo não está no efetivo das tropas que estão entrando no território, pois ele é ínfimo, nem nos aviões, que não fazem mais que bombardear as casas de civis e metralhar alguns. O perigo está em como os gringos manobrarão os seus adjacentes nas Nações Unidas5”.
A viagem à Guatemala termina com Che sendo obrigado a si refugiar na embaixada argentina dias depois da renúncia de Arbenz e sendo obrigado a sair às pressas do país por ter sido condenado à morte devido ao seu apoio ao governo anterior. Assim, abatido com a derrota e insatisfeito com a ação popular na Guatemala. Che Guevara segue para o México desistindo de voltar para casa em um avião enviado por Perón para repatriar exilados argentinos.
Todavia, já se havia conformado um homem que demonstrava curiosidade política insaciável, aliada à carência de espírito militante; com opiniões políticas de esquerda, mas desprovidas de uma formação marxista6.
Ernesto Guevara de la Serna era o mais velho de cinco irmãos e nasceu na cidade de Rosário, na Argentina em 1928. A mãe, Celia de la Serna, havia engravidado três meses antes do casamento7 e, por isso, logo depois que se casou com Ernesto Guevara Lynch, forjaram um plano e se mudaram rapidamente para a pacata cidade de Misiones (localizada no meio da selva), onde poderiam ficar longe dos olhos curiosos da sociedade de Buenos Aires. Apenas dias antes da data do parto é que se mudaram para a cidade de Rosário e somente um mês após o nascimento da criança é que ambos informaram à suas respectivas famílias. Portanto, diferentemente do que consta em sua certidão de nascimento Che nasceu em 14 de maio e não em 14 de junho. No entanto, parece singularmente apropriado que Guevara, que passou a maior parte de sua vida engajado em atividades clandestinas, (...) também começasse a vida com um subterfúgio8.
Ataques de asma acompanharam toda a vida adulta de Che e em sua infância não foi diferente. Suas crises asmáticas foram responsáveis por constantes desentendimentos entre seus pais, pois Ernesto Lynch acusava Celia de ser a culpada da enfermidade do filho, uma vez que havia sido ela quem levou Che para nadar em um clube em pleno inverno argentino e foi nessa ocasião que o garoto deu a sua primeira crise e ficou diagnosticado a doença. Além disso, por recomendações médicas o casal mudava constantemente de localidade para tentar conseguir avanços no sentido de conter as crises de Che Guevara, e isso tornava-se cada vez mais complicado, pois a família estava aumentando e no começo dos anos 1930, quando se mudaram para Alta Garcia, uma região montanhosa de clima seco perto de Córdoba, o casal já possuía a pequena Célia de dois anos e meio e o recém-nascido Roberto além de Che que contava quatro anos de idade.
Em Alta Garcia viveram 11 anos, passando por vários hotéis e casas diferentes, alugadas por temporadas. Para Celia e as crianças esse ritmo de vida parecia férias intermináveis, já para Ernesto Lynch a vida não era nem um pouco parecida com um mar de rosas, pois não podia regressar a Buenos Aires e tampouco arrumava qualquer tipo de emprego local. As famílias Guevara e De La Serna eram famílias de classe média. Ernesto possuía plantações de erva-mate em Misiones, um investimento feito ainda na época do nascimento de Che e Celia graças a uma herança possuía uma estância em Villa Sarmiento. Todavia, nenhum desses empreendimentos vinham dando os resultados de antes, pois o preço de mercado da erva-mate vinha em constante queda e as más condições climáticas prejudicavam a produção em Villa Sarmiento.
Em 1934 nasceu a terceira irmã de Che, Ana María e a vida econômica da família não havia mudado muito. Ernesto nem Célia tinham um sentido prático em relação a dinheiro, e insistiam em manter um estilo de vida que estava muito além de seus meios.9
Devido à asma, Che Guevara pôde freqüentar muito pouco a escola, mas recebeu aulas em casa da mãe que o ensinava pacientemente. Por influência da mãe tomou grande gosto pelos livros e principalmente pela leitura em francês. No entanto, mesmo com toda educação recebida pelos pais, Che Guevara se tornou um garoto cada vez mais desobediente e travesso, totalmente fora do controle dos pais. Fugia de casa quando devia ser castigado ou quando havia discussões entre seus pais e essas eram cada vez mais constantes em virtude do gênio forte de Ernesto e Celia e dos problemas financeiros que enfrentavam. Já no primário, Che era extremamente arrogante e exibido e tinha atitudes que impressionavam seus colegas e os adultos. Um dos motivos de orgulho de Che era a sua participação na ala jovem da Acción Argentina. Em sua adolescência ele era intelectualmente curioso, indagador e com tendência a dar respostas mal criadas aos mais velhos.10
Em 1943 a família Guevara se mudou para Córdoba, pois Ernesto Lynch, finalmente, havia encontrado um sócio para iniciar uma empresa de construção. Essa mudança foi decisiva para uma breve melhora na situação financeira da família, mas por outro lado foi marcada por fortes brigas conjugais que declarariam o fim da união familiar. Numa tentativa de reconciliação, nasceu o ultimo filho do casal Juan Martín em 1943, mas pouco adiantou, pois quatro anos depois quando foram para Buenos Aires o casamento já estava liquidado.
Em 1945 quando, cursou pela primeira vez Filosofia, Ernesto começou a ter um ar mais sério e começou a deixar de lado os livros de ficção que deram lugar a livros com um conteúdo social mais denso, começando a ler autores consagrados como Marx, Engels, Jack London e Nietzsche e obras bastantes difundidas como Mein Kampf. Nessa mesma época ele “cultivou uma imagem de si próprio como um desordeiro incorrigível. Adorava fazer coisas para chocar os professores e os colegas como, por exemplo, sem dizer uma palavra ascender seus cigarros anti-asma Dr. Andreu, de cheiro forte no meio de uma aula; discutir abertamente com seus professores (...) e organizar passeios no fim de semana com sua ‘turma’ até as sierras ou até Alta Garcia (...)”11.
Che começou a trabalhar pela primeira vez aos 18 anos em uma repartição pública que supervisionava a construção de rodovias da província de Villa María, onde trabalhou até 1946. Nesse ano, seus pais fizeram um retorno tenso a Buenos Aires. A parceria na empresa de construção havia fracassado e a família era obrigada a dispor de seus imóveis, assim como da sua plantação em Misiones. Além disso, os pais de Che resolveram separar-se. Che, que ainda permaneceu por alguns meses sozinho em Villa María, teve que partir para Buenos Aires às pressas por causa da morte da avó paterna.
Nesse intervalo, Che Guevara informou aos pais que iria fazer Medicina ao invés de Engenharia, curso esse que acabou abandonando seis meses antes de completá-lo para se aventurar juntamente com seu amigo Alberto Granado em uma grande viagem pelo continente americano, partindo de Buenos Aires e passando por cinco outros países.
A idéia era fazer todo o percurso em duas rodas, como haviam feito em um primeira viagem ao Norte da Argentina em 1950. Todavia, essa idéia não deu muito certo, a motocicleta, que depois de um tempo de estrada começou a apresentar defeitos constantes, acabou por abandoná-los muito cedo.
O diário de bordo, que sempre acompanhava Che Guevara é repleto de aventuras e histórias interessantes. Os dois amigos visitaram lugares turísticos como o deserto do Atacama, Machu Pichu e as minas de Chuquicamata. Uma viagem como essa era o sonho de todos os jovens do mundo do Che, o das universidades e das classes médias do pós-guerra, tanto na América Latina como na Europa ou na América do Norte: o sonho da aventura e da distância12.
“Creemos, y después de este viaje más firmemente que antes, que la división de América en nacionalidades inciertas e ilusorias es completamente ficticia. Constituimos una sola raza mestiza, que desde México hasta el estrecho de Magallanes presenta notables similitudes etnográficas. Por eso, tratando de quitarme toda carga de provincialismo exiguo, brindo por Perú y por América Unida”13

Terminada essa viagem em 1953, Che Guevara, regressou a Argentina, terminou o curso de Medicina na Universidade Nacional de Buenos Aires e deu início a uma segunda viagem que o iria despertar para a causa política.
A estadia no México foi importante para Che. Lá se casou com Hilda Gadea teve sua primeira filha e ingressou ao movimento 26 de Julho comandado por Fidel Castro que tinha o objetivo de formar um grupo guerrilheiro para a tomada do governo em Cuba e promover uma revolução social.
Sua participação no episódio da Invasão da Baía dos Porcos se torna crucial para a vitória dos cubanos, porque foi a experiência na Guatemala que o conduziu a alertar Fidel para o que viria. Che tinha conhecimento do inimigo, sabia do potencial norte-americano. Os Estados Unidos agora tinha alguém que havia estado sob o seu poderio, alguém que estava indignado o bastante para não permitir que se repetisse o fácil sucesso na trágica história dos guatemaltecos de 1953. Além disso, o aprendizado obtido com as viagens à Checoslovaquia, União Soviética, China, Coréia do Norte, Hungria e Alemanha Democrática durante o verão de 1960, Che pôde ter um contato maior com a experiência socialista que motivou acordos econômicos, formação de vínculos culturais e relações diplomáticas amadurecidas e isso deu novo vigor ao desprezo completo da influência dos Estados Unidos, ampliando ainda mais o horizonte e assegurando apoio internacional à uma Cuba socialista.
Após o evento da Baía dos Porcos, as atitudes de Che que demonstravam sua força e sua determinação contra o imperialismo não cessaram. Em discurso na cidade de Santa Clara, no mesmo ano, asseverou mediante exemplos de países ao redor do mundo como Argélia, Congo e Vietnã que:

“La bestialidad imperialista no tiene una frontera determinada y ni pertenece a un país determinado (…) no se puede confiar en el imperialismo, pero ni un tantito así, nada.”


“(…) que el nombre de Cuba recorre a los campos de América y recorre también los campos de otros países del mundo que luchan por su libertad significando siempre lo mismo la imagen de o que se puede conseguir mediante la lucha revolucionaria.14

Outra atitude de 1961 de clara oposição foi a não assinatura por parte da delegação cubana, presidida por Che, para o ingresso de Cuba na chamada Alianza para o Progresso firmada em Punta del Este por vinte nações americanas. Nessa ocasião, em entrevista a um canal de televisão local, Che legitimou a decisão afirmando que:

“Si no reconoce (os Estados Unidos) el gobierno de Cuba, naturalmente que no se podía reconocer, tampoco, la firma del gobierno de Cuba (…) simplemente que el gobierno de los Estados Unidos no se ha dado cuenta que la historia camina todos los días y que es irreversible15

Sem embargo, a experiência de Guevara foi o que permitiu mostrar que o imperialismo norte-americano possuía, então, um contrapeso nas Américas.
Veja também: Baía dos Porcos , Cuba em Revolução e Entrevista: Kalki Guevara

NOTAS

1 CASTAÑEDA, p. 64
2 CASTAÑEDA, p.90
3 ANDERSON 1997, p.150
4 ANDERSON, 1997 p.151
5 CASTAÑEDA, p.96
6 PAIZ, p.80
7ANDERSON, 2005 p.20
8 CASTAÑEDA, p.6
9 ANDERSON, 2005 p.38
10 ANDERSON, 2005 p.43
11 ANDERSON, 2005 p.56
12 CASTAÑEDA, p.65
13 ANDERSON, 1997 p.95
14 Copiada da fonte original.
15 Idem 13.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PAIZ, Bauer. Testimonios sobre el Che. Editorial Pablo de la Torrente, Havana 1990.p.80
CASTAÑEDA, Jorge. Che Guevara: a vida em vermelho. São Paulo, Companhia das Letras, 2006.
ANDERSON, Jon Lee. Che Guevara. Una vida revolucionaria. Barcelona, Anagrama, 1997.
ANDERSON, Jon Lee. Che, uma biografia. Rio de Janeiro, Objetiva, 2005.

Nenhum comentário:

Postar um comentário